Ela me fez ver as cores do mundo

Como um detalhe, você se fez presente na imensidão do deserto da ausência. Camuflou-se e se exibiu, da maneira como quisera, dona de cada movimento. Por algumas vezes, te vi como um vaga-lume quase apagado, mas de brilho ainda vivo e latejante, como se estivesse sofrendo para encontrar a morte. Mas quem sofria era eu.

Naquele encontro primário de universos, não houve empatia de estrelas. Apenas buracos negros se conheceram. Aos poucos, cada braço da galáxia foi perneando o teu espaço e cada poeira cósmica velha que em mim habitava se dissolvia nas dimensões inimagináveis do seu próprio espaço-tempo.

Uma descoberta nova a cada dia. Um novo planeta no teu mapa para ler ser lido e compreendido. Até se passou pela minha mente a impossibilidade de haver o casamento energético entre nós, polos tão distintos. Mas era bobagem. Todo o Cosmo entoava cantos mágicos na surdez do vácuo, me permitindo ter forças para não desistir, insistir, permitir. E eu o deixei entrar.

Todo o Cosmo entoava cantos mágicos na surdez do vácuo.

Você entrou e foi rasgando cada centelha de planejamento, técnica ou cálculo. Você nem pediu licença porque eu deixei a porta aberta e em menos de um segundo se transformou em uma tempestade solar que se debruça freneticamente pelas ondas do meu coração e destrói, destroça, põe abaixo tudo aquilo que eu já havia acredito ser amor. Também era, mas não assim.

Você colocou em cheque o conceito de amor e me provou que sim, ele e seu irmão bastardo Ódio quase sempre visitam a mesma casa, dormem na mesma cama e jantam a mesma ceia. O amor e o ódio são capazes de um destruir ao outro, um matar o outro. No nosso caso, sabemos quem venceu.

Numa trajetória, a linha da vida não é reta e se enrosca nela mesma, dando nós e tecendo redes na qual a gente mesmo cai com frequência. E eu cai na minha. Eu cai no mar do pecado que tanto julguei. Eu bebi da taça da dor que tanto plantei. Preguei nos próximos pés os pregos da vingança, sai caminhando manco e você me levantou.

Eu me esquivei da própria liberdade, porque a entendia como prisão, estando o tempo todo imóvel numa areia movediça na qual faltava pouco para me afogar na lama suja e fria e, aos pouco, morrer. Assim como você, outros me estenderam a mão, mas foi a sua que eu aceitei para me levantar.

Eu me esquivei da própria liberdade, porque a entendia como prisão.

Você me salvou. Você me salvou dos meus pecados, da minha angústia, da minha ansiedade e dos deus próprios demônios. Você me salvou do medo de ficar sozinho, do medo de não ser amado e, o que é pior: do medo de nunca mais me permitir amar novamente. E foi o que eu fiz por tantos anos. Mas, não mais. Agora, eu sou livre.

Agora eu posso bater asas e voar tranquilo pelo céu do teu coração porque tenho garantido que se eu cair, você estará lá para me levantar. Agora eu posso prender a respiração e melhorar fundo no oceano dos seus desejos, sem medo que me falte ou ar quando eu estiver no mais profundo sonho ou loucura.

Eu me dei a chance de amar. E eu te dei a chance de amar alguém que tanto desejou, em silêncio, ser amado. Não desperdice, sei que você não vai. Eu também não vou. Você é um bilhete da loteria onde o prêmio é ser feliz pra sempre. E eu tive a sorte, a honra e o mérito de ser o vencedor.

Foto: Pixabay