O que sou eu?

Eu sou um caminhante que vaga solitário por pensamentos impróprios. Eu sou a sombra que copia a forma das coisas e com todo o poder da natureza as retorce como quero. Eu sou o vento que sopra frio do Pacífico e mesmo miúdo, sou capaz de movimentar as ondas do mar com o meu movimento. Eu sou o sol que nasce e o sol que se põe. Sou uma rua deserta na madrugada, assustada por um gato preto que a atravessa sem olhar para o lado.

Eu sou uma serpente. Sou um réptil verde e rastejante ansioso para dar o bote na primeira presa suculenta que ver. Sou também a presa, que agoniza e morre. Sou um sonho vagante pela imaginação, sou as cores do poente e da noite de lua cheia. Eu sou o cheiro de mata, o suor da floresta, sou um sabiá que canta a mesma melodia todas as manhãs e, mesmo repetido, nunca enjoo. Sou um elo entre o céu e a terra, sou a calmaria do deserto e o inferno no olho do furacão. Posso ser paz ou guerra, posso ser amor ou ódio, posso ser a imensidão entre a plenitude e o desejo.

Eu sou o infinito. Me despejo pelo universo como um mar de estrelas, um tapete de galáxias coloridas e imensuráveis. Contorno a existência pontilhada de multiversos e me dissolvo em brilho no azul vivo de uma estrela ao nascer. Sou um cometa que atravessa o cosmos em linha curva e traça órbitas tão vazias quanto a própria existência.

Eu sou um espírito livre. Um ser cansado das amarras, de ter correntes segurando meus pés, impedindo-me de que abra as asas, de que corra, salte e paire sobre o universo. Eu sou uma alma liberta, um sonhador vagante que por nada procura, apenas encontra, apenas recebe cada segundo da vida como um presente único dado pela energia suprema, mãe de todos nós. Eu sou aquilo que eu posso ser e, não sendo o que não sou, me completo.