O que a brisa traz

Olha, lá vem ela outra vez. Dança sensualmente enquanto pétalas em órbita cultuam seu corpo nu. Traz no rosto um sorriso doce, um olhar iluminado pela paz do seu interior. Enquanto a chuva cai, o perfume do alecrim me convida a saborear a pureza da calmaria.

Lá vem a brisa, serena e lisa. Chega sensível, como um amor que pensa cada palavra antes de dizer, com medo de se molhar pela lágrima que por ventura cair. Acaricia os cachos esparramados, canta no ouvido uma canção leve, um chio quase silencioso, inaudível para os agitados. Chega de mansinho, assopra de pertinho, brandeza natural que faz qualquer um relaxar.

O toque suave na pele queimada toca uma melodia capaz de fazer todos os fios se arrepiarem para o mesmo lado, em uníssona sintonia. Os pulmões agradecem a cada golfada de esperança. Em silêncio, o tic-tac do relógio conta um segredo: o tempo não espera por nenhum de nós.

E, como aprendizado, a brisa nos faz entender que nunca é tarde para recomeçar. Com seu jeito mansinho benzido pela Mãe Natureza, acalanta os corações aflitos, abraça os pensamentos ansiosos e faz dormir em paz aquela angustiante dor de tocar a vida. Como pode um ventinho sereno e suave ser capaz de pôr tudo no seu lugar?

Lá fora, algumas folham circulam em sincronia enquanto sobem e descem pelo ar. O céu escuro já deu seu recado: um dia se foi, é hora de começar tudo outra vez. Ao amanhecer, uma nova luz irá brilhar sobre nossa pele, um novo calor irá aquecer nossos corpos, outros ventos guiarão nosso caminho.

Embora a vida seja um jogo impreciso e com movimentos impossíveis de se prever, é preciso arriscar cada nova partida com uma única certeza: se cair e um machucado fizer a pele doer, basta ter calma e esperar pelo movimento brusco das nuvens no céu e o pesar das gotas caírem sobre nós. Isso basta para que uma nova brisa refresque nossos pensamentos e, com um beijo suave, cure as feridas do corpo, da alma ou do coração.

Anúncios