O menino e o balão

Pedrinho era um menino quieto, sempre com cara de triste e insatisfeito. Tinhas bons pais, morava em boa casa, comia boa comida. Mas o coração de Pedrinho nunca estava bom. Às vezes acontecia de acordar feliz, mas era pôr os pés no chão, num mundo real que não era o sonho da madrugada, e tudo ia por água abaixo.

Quem via Pedrinho de longe não dava 8 anos para o menino. Sempre ranzinzo, de cabeça baixa, beiço inchado e pouca graça… se pusesse uma bengala na mão, fácil, fácil se passaria por um velhote casmurro. Os ombros declinados, os bracinhos para trás, o olhar triste a reparar o chão (muitas vezes seguindo a própria sombra)… ele era, sem dúvida, um menino triste.

Se, às vezes, a mãe o obrigava a brincar com os amigos da rua, Pedrinho até que ia, mas sentia-se fora de lugar. Nos encontros da família a piazada ia brincar pra um lado, as meninas pra outro e Pedrinho se sentava solitário com Monteiro Lobato perdido nas mãos. No entanto, houve uma ocasião que fez Pedrinho se encontrar.

Era aniversário de um dos primos e lá estava ele outra vez, num canto, observando, quieto e pensativo, como sempre fora. Os moleques corriam brincando de pega-pega, as meninas pulavam no sofá cantando e dançando e o pequeno casmurrinho se continha com o Lobato em mãos.

De repente, por um descuido, tirou os olhos das estórias e vasculhou o céu. Lá, viu um balão vermelho ignorado por toda aquela molecada. O balão acenava de um lado para o outro, como se o convidasse para uma aventura. Fechou o livro, pôs sobre a cadeira de palha e saiu de fininho, sem ninguém perceber e nem notar que Pedrinho mergulhava em uma jornada.

Um passo atrás do outro, chinelo amarelo nos pés, Pedrinho foi até o balão e deu um pulinho tentando alcançar o barbante… alto demais para sua alturinha. Mas o balão não sossegou. Continuou a vibrar de um lado para o outro, até que não haviam mais chances para segurá-lo. Pedrinho emburrou. Cruzou os braços e olhou para o chão com uma lágrima a fustigar-lhe a vista. Nisso, uma sombra marota mandou um recado na terra batida, e ele entendeu: “venha comigo”.

No começo da viagem, não havia nada de excepcional. Era a mesma cidade, as mesmas praças… a mesma paisagem cinza. Então, como magia, algo se acendeu no coração de Pedrinho e ele começou a ver cores por onde passava. Em minutos, visitava outras cidades, outros países. Conheceu a Grécia e a Roma, caminhou pelas Índias e abraçou um guru, corou ao ver um leão na savana africana e se espantou com a altura de uma girafa. Não sentiu frio quando visitou os pinguins e nem calor quando andou sobre camelos no Saara. Seu amigo, o balão, era quem o guiava.

Pedrinho riu muito com o palhaço de um circo em Chicago, sentiu a bruma fresca das Cataratas do Iguaçu, catou conchas numa praia da Oceania e até entrou na bolsa de um canguru australiano. De repente, nem mesmo o tempo era o dono de si: voou nas asas do 14 Bis, visitou os primeiros homens e a primeira chama acesa, fez companhia para Thomas Edison em todas as tentativas de criar a lâmpada, viu as pirâmides do Egito serem erguidas e, escondido numa macieira inglesa, fez travessura na cabeça de um tal Isaac Newton. Pedrinho estava, pela primeira vez na vida, se divertindo.

Quando, novamente se encontrou com o mar, seu amigo Balão fugiu de alcance, indo cada vez mais para o horizonte. Pedrinho não sabia nadar e logo percebeu que não precisava: superando as leis da física, o balão mergulhou na água safira e o menino foi com ele, sem nem sentir diferença na respiração. Ao conhecer o oceano, viu peixes grandes e pequenos, baleias e tubarões. Nadou com golfinhos e se perdeu ao contar os braços de um polvo… ele era ruim de matemática. O balão mergulhou mais além, para uma terra esquecida por toda a humanidade e, assim, Pedrinho conheceu Atlanta, um reino encantado de ouro e prata.

Do fundo do mar para o alto dos céus, Pedrinho estava tão leve quanto o balão que o guiava. Viu estrelas e planetas, pássaros imigrando e nuvens com sabor de algodão doce. Sentiu-se pequeno vendo de cima como pequeno o mundo era… e mesmo assim fazia parte dele. No peito, habitava uma constelação de novos sentimentos: sentia alegria, esperança, estava grato por poder descobrir lugares e conhecer a si mesmo. Mas era hora de voltar à terra firme.

Pedrinho retornou à festa, o mesmo lugar de onde saiu. O balão vermelho desceu para perto de seu rosto e como em um beijinho de esquimó se tocaram com carinho. Ao abrir os olhos, meio tonto pela emoção, via, de longe, a sombra do balão se confundindo a luz ofuscante do sol a colorir em monocromia a imensidão do céu.

Parecia que tudo estava igual, mas, na verdade, algo havia mudado: Pedrinho conseguiu entender que sua infelicidade não era culpa sua ou de ninguém. Aquele espaço e aquelas pessoas não faziam parte do seu mundo, do mundo que queria para si. Era apenas um menino com muitos sonhos para sua idade. Com a cabeça erguida, ele soube no seu coração que deveria esperar um pouco mais para ser feliz, pois o seu lugar estava longe, muito longe dali.

Para todo Pedrinho que há dentro de nós.

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