Manifesto do Impossível

Há uma ressaca que se aproxima. O mar recua, a brisa descansa. Os tons no céu dançam em plena magia. Os pássaros migram para a liberdade, as borboletas retornam para o casulo. É a solidão que agora impera.

A sombra do eu que me apavora é a mesma que me guia para uma suposta alternativa além dessa ilusão. Não há carros nas ruas, não há gente lá fora. Apenas o caos impera, em um estado que ainda não é caos: é benção. É um aviso de que podemos nos afogar.

E que nos afoguemos! Que possamos soluçar de amor, recuar nas ondas de um abraço, iluminar com um sorriso ensolarado almas que não tem tanta sorte de terem luz, como as nossas. Que sejamos capazes de ver na simplicidade o quão complexo é viver. Que tenhamos a força de uma formiga e a coragem de um camelo para enfrentar tantos sóis quantos couberem em nossas costas. 

Que tenhamos no coração um sangue quente pronto para a guerra, mas que este sangue não se esfrie na espera de uma realidade que para chegar demora, demora, demora… E que em nosso olhar não falte o brilho de uma vida boa, que nossa língua possa provar de todos os sabores, que o paladar nunca perca a graça nem mesmo quando o sal estiver sem gosto.

O desejo de que possamos ser fortes não deve ser apenas desejo. Precisa se tornar luta, carne transformada do verbo sobreviver. E que entre a rotina tenhamos muitos beijos, que no calendário marquemos um encontro suado, que o solstício equilibre nossos sonhos enquanto sol e lua se equilibram no céu. 

Por fim, que este desejo não seja pelo ego, mas que seja por nós. Que não nos esqueçamos daquele passado remoto onde havia lama para brincar. Que a inocência do talco não morra na maturidade da memória. Que não nos falte o respeito, que nos sobre carinho, que a palavra seja a única lei entre duas mentes. Pelo fim das fronteiras, pela extinção do território.

Que depois do maremoto haja sobreviventes. E então, que venha o novo. Que nasçam as plantas, cresçam os animais, evolua o homem. E que sejamos, todos, aquilo que queremos ser e, sobretudo, livres.

 

Foto: Pixabay.

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