Doce ilusão

Sentar e chorar. É tudo o que resta-me a fazer. Não há forças nas pernas para manter-me em pé, tampouco nas bochechas para forçar um amarelado sorriso. Que monotonia incessante, entediante e aborrecida.

Sol após sol, coloco-me a despertar no mesmo círculo em que fui dormir. Estou preso a um loop num pesadelo em carne viva. Os mesmo demônios que me assombram à noite andam comigo durante o dia. Não há destinos para fuga, nem escapatórias. A alma carece de amor e o corpo de vitaminas. Os sonhos carecem de coragem e a esperança está intimidada contra a parede.

Um afago maternal me tranquiliza e, ao mesmo tempo, me lembra que homem eu sou. Há ainda algum homem para ser? Sobrou espaço na mesa onde eu possa me sentar para jantar? A resposta antecede a pergunta: não há, nunca houve e jamais haverá.

Entre meus iguais não há espaço, entre os diferentes não há espaço, entre o próprio espaço falta a autonomia de viver. Talvez, tudo o que tenha me sobrado é uma alma vazia angustiada por andar pela neblina a seguir um farol cada vez mais distante e opaco. A única nitidez que me resta é o próprio instinto. Renegado, humilhado, posto de castigo. Para o jantar, me sobra o osso sujo que o cão rejeitou comer.

Há alguma virtude em um homem incapaz de reagir a um tornado que se aproxima? Qual a honra daquele que espera os espinhos do problema espetar-lhe a membrana ocular para, então, recorrer ao desespero da sobrevivência? Notai, este tempo todo parece-te que estou a falar de mim ou de tii? Percebeste como somos absolutamente iguais nas mais profundas diferenças? Entre o alfa e o ômega, entre o nascimento e a morte, há um caminho vasto e todos nós o caminhamos com a mesma certeza do final.

Não há salvação para nenhum de nós. Perdoe-me, mas esta é a verdade. A única maneira de salvar-nos, uns aos outros, é empunhando espadas e destruindo-se até que o último homem vivo sobre o monte de corpos pútridos em larvas e varejeiras toma a coragem para cravar-se, pelo próprio gume, num sorriso sangrento e vago, num olhar profundo para o horizonte aberto, na certeza de que não sobrou nenhum verme humano a perambular sobre a Terra. Portanto, pergunto-te: que utopia é esta em que se pode saborear do mel da felicidade sem provar o fel da angústia? Como valorizar o calor de um colo sem conhecer a frieza da solidão?

De alguma maneira (talvez seja isto que honre nossa natureza), todos os erros já foram cometidos e todas as respostas já foram encontradas. Viver é se acostumar com a ilusão de que continuar correndo atrás do próprio rabo vai fazer algumas diferença na história da humanidade. Uma doce ilusão que nos mantém alegres e ludibriados até o fim.

 

FOTO DE CAPA: PARACELSUS

 

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