Fuja!

Sinto o nada. Na verdade, sinto as lágrimas se formarem por de trás dos olhos, loucas para sair, brigando com o orgulho ainda não destruído e que tanto me leva para os pontos mais baixos do inferno.

No peito, a dor fica perdida, com tarefas acumuladas: ela não sabe se aperta, se sufoca, se me tonteia ou apenas fica ali, se alimentando das migalhas de alegria que sobraram na dispensa da vida.

Um basta. Queria eu dar um basta. Queria eu pôr fim ao meu sofrimento, ao meu pesar. Mas para isso, preciso saber que pesar é este que tanto realmente pesa nos ombros, nas pálpebras e no olhar. Que pesar é este que se arrasta da cama pela manhã, acorda com o tsunami quente expelido pelo chuveiro e diz: mais um dia.

O coração dói. Mas que dor é esta? É dor de amor? Não, não é. O que havia para ser plantado nas terras do amor, já foi. Os frutos, lindos e doces como um morango colhido do pomar, deram sabor e prazer. Não… não é a paixão quem me traz esse saco de areia e me joga nas costas.

É a frustração de alguém que se dedicou estudando e se aprimorando para, como sempre quis, ser diferente, ser melhor? É o cansaço de quem todos os dias dá sorrisos que não quer, aperta mãos que preferiria não apertar, é gentil com o próprio escarro? Pode ser.

Mas há uma terceira opção e, talvez, a mais apropriada: o choque com a realidade. Dentro de mim há ainda um pouco de luz, quase apagada, mas há um pouco de luz. E essa luz me diz: não é aqui que você quer estar, não é isto que você quer ser, não é este o emprego que você quer ter. Este não é o sonho que você sonhou.

Essa luz, fraca e agradecida como Dobby agonizando nos braços de Harry ao se despedir, procura oxigênio para queimar. Enquanto queima, ela grita: Fuja! Vá para o deserto do seu pensamento, ou para as montanhas do seus sentimentos. Mergulhe na imensidão do oceano do seu amor ou bata as asas para voar alto no céu claro do seu aprender. Saia daí, não bata a porta para que ela permaneça aberta caso seja preciso voltar, mas fuja.

Não deixe que te sufoquem, não deixe que me apaguem. Ainda há paisagens para ver, há emoções para sentir, há amores para encontrar. Então, tome coragem, e fuja. Arrisque-se. E daí se te julgarem? E daí se falarem de você. Deixe que falem. Deixe-os presos no peso rochoso de suas línguas enquanto seu rastro pelas nuvens seja observado.

Quem desdenha da luz de um farol, fica cego ao olhar para o sol.

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