12%

12%.Não sei porque eu demorei os outros 88% pra começar a escrever isso. Na verdade, acho que estava pensando no que não escrever porque o caminho inverso tem sido o menos louco pra mim. Já me peguei três vezes na semana tentando definir algumas coisas sobre o eu. Me vi falando sozinho o trabalho, chorando inaudível no banho, deixando a menina do olho tonta de tanto correr de um lado pro outro observando o cru do teto do quarto. 

11%. 

E assim a vida vai escorrendo numa grande ampulheta nas mãos da morte, no entanto, essa filha da puta esquece de virar o objeto pra começar denovo, prendendo-me como o último grão de areia numa sina entre o vácuo e tudo aquilo que é igual a mim. Insolúvel forma de viver a vida, minha. De desejos nenhum pouco insanos, apenas o básico eu quero e parece ser ele, o fácil, o modo mais difícil de ser alcançado. Não tentando me esconder dos espinhos, evito passar por eles porque arranham e sangra onde o pontiagudo rasga na casca dura da ignorância. Não há, nesse burburinho de gritos, nesse horror de versos desalinhados de vozes masculinas e femininas som mais alto do que aquele que grita e frita incessante a mente dançando entre um lóbulo e outro. 

10%. 

E me sobra apenas um pouco de tempo pra descrever um tanto de ser que havia em mim antes da cultura entrar. Longe de ser um intelectual, perto de pseudo. Às vezes, por mais louco que pareça, entre o errado e o certo há apenas uma escolha: pausar o tempo para tentar decifrar qual é menos sádica, menos amarga, menos ranhosa. E de todo o cotidiano, de todos os sóis que se levantam e de todas as sombras que se põem, sempre há uma ressalva de magia intercalando o som amiúde de respiro e transpondo o que não é raro. 

9%. 

Um gole do café pra não perder a essência. Dois monstros saem da sala armados com suas juras de amor e pagam a conta do que, em breve, jogarão fora por luxo. O luxo vira lixo e o lixo se transforma em luxo de outro alguém. É quase que um remédio para todas as dores, cabe certinho em muitas anedotas do viver. Só, no canto e rezando para não ser percebido, escrevo das mais trágicas façanhas o que restou de análise profunda e pouca ação pra discorrer. Apenas pensamentos flácidos, ombros doloridos, pulmões sujos e uma boca doce ainda sentindo o aroma do chocolate se dissolvendo abaixo da língua entre o cuspe e a miséria. Deve haver algum tipo de instinto mais profundo que o do homem para ser chamado de lobo proque ele, o próprio, é muito dócil na comparação com o animal tão cruel quanto o mamífero apaixonado pela lua. Pulam, saltam, sambam, sussurram e não há sussurros, apenas os gritos silenciosos – embora pareça loucura e é – dentro da mesma mente perdida e deslocada do real. Entre o dentro e fora, entre o ser e não o ser, há uma muralha simbólica capaz de destruir cidades e levantar florestas. 

6%. 

Um pulo de energia. Há um atraso no tempo da narrativa. Entre uma viagem rápida e outra, perde-se, inclusive a noção do tempo da própria vida como ascendência à loucura e desagrado ao dócil, ao infantil, ao natural. Deslizando sob a plataforma do silêncio, as palavras andam lentas com a força das rodas sujas.

3%.

Não me resta muito tempo e todo o tempo que me resta não dá a mim o crédito de usá-lo. Memórias visitam histórias e há uma percepção contínua de todos os pecados que cometi. De dentro do olhar, atras orbe amarelada, há uma poça em lágrimas pronta para escorrer sobre a pele seca e mal cheirosa. 

1%. 

Fui sentenciado à morte quando me doaram à vida e não há nada que possa ser meu, nem tocável, nem intocável, nem objeto, nem subjeto, nem sentimental, nem patrimonial. Todos os cenários percorreram o caminho itinerante da evolução chegando ao áuge que qualquer é toda pessoa de coração humano é capaz de chegar: o arrependimento no anseio da morte.

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