Despropósitos da incerteza

Ouça esta música ao ler o texto.

Experimento um cansaço cordial chegar aos meus ombros, fazendo afagos lentos e carícias ternas, sinto-o beijar minha face como faz a mãe a criança moribunda. Meus ombros se curvam frente ao cansaço, essa fadiga que lentamente tem tomado meu corpo, atado meus braços e não raro me enclausura, é compartilhada por tantos sujeitos em tantas partes do mundo, que nem mesmo a solidão é em si ato subjetivo.

Levanto-me da cama, com a consciência que somente uma noite mal dormida proporciona, como se mundo fosse translúcido e eu portadora de todas as ciências. Tenho a lucidez do observador, tenho a passividade de quem apenas finta tudo ao seu redor em uma espreita distante transfigurada em sonho. Assumo a posição daquela que deixou de se preocupar, se o dia amanheceu ou a noite ainda possui lua, o mar ondas e o amar peito.

Ligo-me a uma sabedoria interior, que revela não saber nada, é tabula rasa e tem a ciência disso. Encaro-me como se fosse aquela que dominou algum segredo, que zerou uma função ou viu no eixo do mundo a face de algo superior. Mas sou apenas o rosto do cansaço de quem olha para o universo e distancia-se por ser uma estranha diante dele. Estou certa da minha ignorância, e da impotência diante dessa máquina hostil que mutila, amputa, mata e aparta.

O riso agora marca meu rosto e as linhas de expressão criam sulcos que só o sarcasmo pode fazer. Ninguém compreende o que sou e não reconhecem meu olhar semicerrado, pois a densidade da não certeza pesa diante da convicção. Assim, caminho a passos lentos com a exaustão dos dias, desapegada de coisas, despossuída de verdades, estou a observar os fenômenos, sem possuir a consciência das coisas. Sou uma agnóstica da vida, dos fatos, dos dias, das horas, e no indefinido não quero me arriscar a afirmações dúbias, já errei tantas vezes que fui totalmente dominada pelo medo de fazê-lo novamente.

Estou anestesiada a tudo, estou eu, indiferente a muito. Deito-me no chão frio fechando meus olhos, enquanto uma imagem fixa-se em minha cabeça. Parada em uma encruzilhada hipotética olho para quatro diferentes caminhos, mas escolho sentar-me no centro, em um banco de madeira confortavelmente construído para um observador que não quer interferir, com um sorriso de canto, que só possui quem reconheceu a não singularidade de sua existência.

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