O acompanhante paradoxal

A inercia me consome, horas se evanescem, o tempo adquire uma fluidez voraz que teima em correr. Tento agarra-lo, mas é como água que escoa por entre meus dedos. Sentada no chão frio em pernas entrelaçadas, estou estática ante um espelho, recito por horas ininterruptas meus maus poemas e outros confeccionados por velhos amigos já mortos, mas que partilharam do mesmo pão e se embebedaram de igual melancolia. Olho-me, como quem encara o estrangeiro, concentro-me nos olhos ébrios e instáveis, vejo e sinto a alma espessa movendo-se no mesmo compasso do coração, infla e contrai em um movimento dicotômico.

Subjugada a essa morbidez intrínseca e tácita, criei um universo estranhamente particular, adornado por tantos demônios que até eu temo encarar, paradoxalmente é esse inferno que me traz serenidade. Minhas mãos gélidas e trêmulas aspiram pela caneta e a xícara. Freneticamente me ponho a escrever para desengatilhar o peito. Enquanto o líquido negro de noite despossuída de lua, invade a boca, rasga a garganta e aquece as entranhas, sinto a venosa cafeína manter meus olhos vidrados e concentra-me no que quer que me tire do limbo que conservo-me. Quando a loucura espreita-me, persegue-me, no jogo de caça e caçador representado na linha tênue que segrega a lucidez e a insanidade. Nessas horas de intensa introspecção, minha cabeça pesa, parece desconexa do corpo, meus pulmões queimam em brasa no desespero de tragar todo ar que me envolve como bruma. Revolta-me, nunca me disseram o quão laborioso seria me afastar da irracionalidade.

Meus lábios se movem lentamente, ainda estou a encarar meu reflexo. Enquanto as palavras desenhadas em caligrafia ininteligível fluem da boca, fazendo eco no ambiente, tornando tudo mais distante nessa alcova de paredes sólidas, reais de fora, mas que parecem refletir um sonho irreal no frio interior. Meus olhos piscam apressados, procuro bestialmente por algo familiar, mas nada que me cerca parece verdadeiramente ter conteúdo tangível. Continuo a recitar poemas vorazmente, minha voz áspera parece prover da garganta de algum animal mortalmente ferido.

Desejo que os versos possam salvar-me do abismo que me mantém em sua profundidade, abismos cavados em longas horas de solidão, que obriga-me a ter-me como única companhia. Apesar das frequentes tentativas de dissimular-me, afastar-me de mim, querendo desacatar-me, cuspir a bebida amarga que me é servida no exílio interno que condenei-me a estar invariavelmente. Contudo, só possuo a mim mesmo, esse oblíquo espectro humano do real, só nele posso confiar à realidade, só a ele atribuo existência, todo o resto pode revelar-se metafísica, produto da minha mente. Então aceito-me como acompanhante, nem que minha presença seja composta tão somente de um encarar a si mesmo diante de um espelho em um lúgubre quarto vazio. Nesse torpor do marasmo  de um rosto taciturno, abraço-me a lucidez  que acompanha o ficar em silêncio consigo mesmo em rogo.

Essa face doentia da consciência floresce o diagnostico, de que apesar da espreita a loucura não me alcançou. O irracional não me pertence, não adentrei o nevoeiro de alucinações e delírios, coloco-me a reafirmar minha sanidade com toda a certeza que versa sobre os testes que me submeti. E não tarda até que novas perguntas afloram nos vãos das respostas, como em uma espiral me pego a questionar-me novamente. “A insanidade é reflexo do subjetivo realizado e submetido ao explicito?” “Como a mente atormentada acusaria a si?” “Mas existe a loucura?” “Ou só existe o inverso da lucidez?” Que leva-me a sentar-me diante de um espelho em um comércio de palavras interiores que gritam, enquanto o mundo se cala e distancia-se no labirinto infinito do meu eu interior. E o que barulha é a superfície inculta do primitivo que habita meu insensato cotidiano. E nesse movimento cíclico, me apego à esperança de que essa angústia é efêmera como a vida que caminha a passos largos para um fim incerto, em um sopro é e no segundo já não o é mais, e novamente me toma em única certeza, a fugacidade de tudo.

É essa constatação do conjunto das coisas forjadas em incógnitas mal feitas, que impulsiona-me a levantar-me, minhas pernas já rijas, os músculos doloridos entram em ritmo mecânico. Deixo o espelho, e vou deixar o quarto, engulo então todos os versos recitados, meu estômago cheio de poesias de pessoas póstumas consola-me, pois só sei imaginar palavras e por imagina-las que saboreio o prazer de estar viva. E cada palavra é sangue, é tinta, é parte de mim que conheço e não quero dissocia-las, nunca terão intervalos entre mim e elas. Mesmo que o reflexo, a loucura, o medo, o feio, o belo, o amor, o ódio e tudo que permeia meus pensamentos signifique algo, não o poderia saber sem as palavras, então escrevo para tudo existir e para existir-me em algo.

Dado meia volta e deixado a soleira da porta do quarto, expulso-me daquele ambiente, com um estrondoso barulho, para ecoar o som e fazer dele retumbante e vivaz, e sentir-me como se estivesse renascendo para o mundo. Em meu parto, a espera de ruído não chorei, pois formou-se apenas o silêncio, desértico, árido, sepulcral e logo todos os homens seriam mudos e todas as vozes seriam também minhas vozes. Pois eu tenho as palavras eu tenho a humanidade em letras, e todo o amanhecer amanhecerá em mim. Eu, o escriba, o letrado, o que em ato egoísta para salvar-se, escreve o mundo mesmo sabendo que o profana.

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