Escolhi estar comigo

Leia ao som de Blue de Troye Sivan.

Há um descompasso muito grande na vida. Nem sempre as coisas seguem como planejamos, desejamos ou sonhamos. Na verdade, quase nunca é assim. Nunca é.

Nunca estamos onde realmente queremos estar, fazendo o que realmente queremos fazer. Apenas aceitamos a situação, o ambiente e nos satisfazemos com o pouco que conquistamos. É como ficar parado de frente para o mar e achar que está feliz apenas porque a maré encostou na ponta dos pés ao invés de… Ao invés de sentir o corpo todo vivo se afundando na água. Quando deveríamos nos arriscar para encontrar o prazer, ficamos parados se contentando com o pouco que vem até nós.

Não estar onde se quer estar.

Não fazer o que se quer fazer.

Não ter quem se deseja ter.

Porque tem que ser assim?

Pessoas passam pela nossa vida. Pessoas que gostamos, que odiamos. Gente com quem fazemos questão de brigar, de brincar, de amar. Nos satisfazemos com o que aparece, criamos um ambiente favorável a uma amizade, a um romance. Estamos o tempo todo tendo a ilusão de estar vivendo quando, na verdade, penosamente sobrevivemos. A sobrevivência cansa. Aos poucos, cada dorzinha se acumula e o resultado é uma bolha prestes a estourar.

De tão cansados que estamos, deixamos de correr atrás novamente. Já não fazíamos isso antes e agora tampouco. Então, a vulnerabilidade aumenta. A solidão se aconchega e faz da sua sensibilidade ninho perfeito para ficar. Nada é gostoso. Nada é satisfatório. Nada mais dá prazer. Há sombra. Quietos, imóveis, ficamos envoltos pelo nevoeiro. Até que uma luz se apresenta longe, quase intocável e caminha até nós.

É a nova oportunidade de viver. É a nova oportunidade de amar. É a nova chance de fazer o que se quer fazer, estar onde se quer estar com quem desejar ter porque o desejo é esta luz. Ela te aquece. Ela te faz soltar sorrisos bobos durante uma conversa ou rir desesperadamente de uma piada sem graça! Essa luz vem de um olhar que encanta, um olhar que te provoca.

Um olhar que te usa.

Pois em um momento você descobre que, na verdade, todo o tempo passado juntos (mesmo que distantes), toda a alegria exibida, colorida, amada e sentida era apenas uma… alegria. E que a felicidade ainda está longe de chegar. Você, assustadamente toma por si, e vê que aquele ponto claro era apenas uma ilusão. Um desejo repetido, uma vontade intrínseca pronta para explodir. Mas não vai.

É hora de cair em si. Então, como uma ostra, você se fecha e jura que não vai mais, nunca mais, se entregar para ninguém. Jura pra si mesmo que não vai deixar mais ninguém ser uma pequena luz te usando e consumindo da tua escuridão. Você jura, promete. Mas é uma promessa em vão. É uma promessa ao vento porque você sabe que um ciclo de verdade nunca, nunca termina.

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