Faça-me amar

Eu tenho me reparado ultimamente. Tenho visto que estou frio, durão e me pondo máscaras que não existem. Notei que não te acordei com um beijo, como sempre fiz, nem reparei se você estava com frio ou puxei o cobertor para lhe esquentar. Não preparei os omeletes com orégano e banana que eu sei que você gosta. Não me dei ao trabalho de ir até a horta e colher os morangos que plantamos juntos. Não me importei com nada.

Há semanas estou assim. Quando a noite você me toca para fazer amor eu dou uma desculpa, digo que estou cansado, digo que não quero, digo o que não digo. E quando seus olhos procuram os meus, eles se esvaem, fogem, evadem-se para o horizonte a procurar o nada. Quando sua mão delicada toca meu rosto, minha pele, e nela sinto o cheiro de aloe vera do seu creme hidratante, eu me lembro, num rápido flashback, do dia em que casamos.

Das cadeiras de madeira, todas brancas decoradas com violetinhas e orquídeas, equidistas sobre a grama orvalhada. Lembro do altar, um tronco já muito velho de um carvalho centenário. Sob o tronco nu, o juiz pusera os papéis da nossa união. Ali também estavam dois castiçais prateados de sete velas cada um, catorze delicadas chamas fluíam e lutava contra o vento da manhã. Lembro das nossas alianças, prateadas e com um brilhante em cada uma. Mandei gravar nossos nomes para sempre nelas.

E, em toda essa lembrança eu quase sinto novamente os odores dos florais e dos perfumes dos convidados. Quase sinto até os mesmos sentimentos do dia. Agonia, alegria, nervosismo. Eu só queria que disséssemos o “sim” um para o outro e fossemos para a cama, como tantas vezes havíamos amado, e que terminasse da mesma forma feliz e fresca.

Mas o tempo é maldoso. Ele corrói mausoléus, mata os vivos, desagrega os unidos. E o tempo foi ruim para o meu coração. Tudo o que eu vivia, tudo aquilo que parecia um sonho, na verdade era mais do que um simples sonho, era a realidade ideal. Cada sopro de amor, cada beijo e cada toque, cada transa forte. Tudo o que sempre quis. Tudo o que eu preciso mais uma vez.

Cure-me dessa estação fria e pálida. Traga-me novamente em teus lábios o calor primaveril e colore este lado do meu mundo. Faça-me te amar como um dia te amei. Nascemos um para o outro.

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