Nas suas águas

Fatigado, usei meu shorts, peguei a prancha e fui dar um mergulho. Era sexta-feira, o melhor dia. Trabalhar de novo, só na segunda… Além de mim, o mar também estava agitado. Bom para sentir as ondas quebrando e o vento secando a água que ainda restava na pele.

Depois de algumas horas dançando com as ondas, meu corpo ficou cansado e a fome era certa. Fui até o Bosque, o quiosque de cachorro-quente do meu irmão. Pedi uma água de coco e uma tapioca.

— Duas! – soou a voz grave do homem que se encostava no balcão ao meu lado. A pele morena exposta e suada era vergonhosamente lasciva.

Nunca havia visto aquele homem, pelo menos, não nessa vida. Mas em algum outro lugar, eu sentia, já o tive por perto.

— Renato, prazer.

Eu nem dei bola. Respondi um “eae” fingindo a heteronormaividade e continuei a caçar garotas no Tinder no meu Samsumg. Dei “match” com, pelos menos três, e duas outras já haviam puxado conversa. Meus oito gomos eram um prêmio para elas. Na mente vazia, nada me atormentava. Apenas na demora pela tapioca. Cansado de esperar, sentei-me em uma cadeira plástica vermelha, típica de boteco e continuei a caça na selva tecnológica. Embora fixado na tela do smart, eu sentia algo me incomodando. Renato, o rapaz que se apresentara no balcão, me olhava fixamente e aquilo me irritava, de alguma forma. O pior aconteceu.

— É tímido assim, sempre? – questionou tirando a única cadeira à minha frente e sentando sem ser chamado.

— Não sou muito de papo – confessei.

— É, nem eu. Vi que pedi tapioca. Gosta da tapioca daqui? – perguntou com ar de graça e provocante.

— Prefiro quando a como sozinho – retorqui, brusco.

— Ah, deixe de besteira. Vamos tomar algo? – ele era cheio de perguntas e eu vi que não iria adiantar ficar de bico na minha caçada particular.

— Eu pedi uma água – respondi com um leve sorriso – obrigado – reforcei a cara de simpático.

— Ah, pare, água? Garçom! – elevou a voz – Duas caipirinhas com bastante gelo! – ordenou e em seguida, esticou-me a mão – Eu sou Renato, e você?

— Lucas – apertei a mão dele e desliguei o celular. Esse cara não iria me deixar em paz, pensei. Depois da bebida, da tapioca e de 3 horas conversando, eu é quem não queria deixá-lo em paz.

— Pelo visto a tenda já vai fechar. Então, Renato, o que vai rolar em plena sexta? Balada, namorada ou vai pra casa dormir?

— Eu não sou de balada, não tenho namorada e não estou com sono. E você, novo amigo, Lucas? – respondeu dando tapinhas nas minhas costas e alargando o sorriso claro e envolvente.

— Não, não e não. Que tal se a gente conhecesse mais o Rio de Janeiro? – convidei-o sem saber para onde levar. O álcool já havia feito estrago, nos dois.

— Só se for agora! – e levantando-se, esticou-me a mão para também me levantar. Abraçados, como, de fato éramos, dois bêbados, passeamos por ruas movimentadas da Cidade Maravilhosa.

— É como eu disse, hoje em dia mulher nenhuma quer saber de compromisso, cara – reforcei a conversa – eu pelo menos ainda não encontrei minha outra metade do limão, sabe?

— Talvez sua metade esteja na fruta errada, meu caro – corrigiu-me. Então percebi seu olhar. Já não era mais o olhar curioso, do Renato que me estendeu a mão, e nem o olhar divertido, daquele que riu das minhas piadas. Era uma composição de quentes olhos primaveris. Nas últimas horas eu não havia olhado bem em seus olhos e nem notado na borda suave que havia nas ocres pupilas. A sobrancelha espessa por fazer e os cílios compridos formavam um harmonioso par. O conjunto se estabelecia nos lábios. Eu nunca reparara em lábios de outrem, como reparei nos dele. Pequenos, finos e rosados, como os de uma menina recém sangrada. E, os mesmos lábios estancavam um aberto sorriso e claro como a neve que cai certeira em Winterfell. Toda a empolgação me extasiou de forma alucinógena e, antes que eu pudesse dizer-lhe “não”, senti o beijo que me deu.

Não compreendi. Queria mais  que um beijo. Queria repetir aquilo. Mas não tive coragem. Corri sem rumo e esta é a última lembrança que tenho dele.

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