Negra, meu amor

Eu nem havia reparado que ela estava usando uma saia justa no dia em que a conheci. Na verdade, eu não havia olhado para outro lugar no cenário vigente que não fossem… seus olhos. Ah, sim, seus olhos. Por acaso, eles não eram verdes. Por ventura, nem eram azuis. Aquelas bolitas cheias de brilho reluziam a cor da cáscara de uma caneleira.

Mal pude deixar de observar, também, o seu sorriso. Largo e curvado, como um caiaque pairando sobre o rio. E, sobre o caiaque, dois lindos remos. Pendurados, um em cada orelha, os brincos suavizavam aquela ternura toda, aquela palidez inerte, aquela… simplicidade. Mas eu ainda acho que vale mais a pena falar sobre os olhos.

Eles não me escapavam, não me fugiam, não procuravam saída para os cantos como se os meus fossem caçá-los em uma brincadeira infantil e jogá-los ao chão, fazer-lhe cócegas até que eles… chorassem de rir. Oh, não! Estas esferas de luz, reluziam, é claro, luz e iluminaram, não apenas o meu dia, mas todos os dias da minha vida.

O que mais me interessava neles era o seu par de meninas. Elas pareciam tão perdidas dentro de cada imenso círculo branco e amarronzado que dava até gastura só de pensar como era pequenas, aquelas meninas. Desproporcionais.

E o conjunto, a somatória de olhos lindos, dentes lindos, lábios lindos, só poderia resultar em uma arte: um rosto lindo. Ah, mas se eu te contar, tu nem acreditas! Adivinha só o que também era lindo  naquele corpo? Sim, os cabelos.

Ondulados, cacheados, enrolados. Rebeldes. Os fios em grupos faziam curvinhas, e estas, se uniam a outras, então formava um grande conjunto de pequenos bambolês dançantes a cada passo dado ou soar do vento. O toque mulato foi essencial para que ela se tornasse, não apenas a mulher mais linda que as lentes dos meus olhos já filmara, mas também, a mulher pela qual eu viria a me apaixonar.

E me apaixono. Todos os dias seu sorriso é o mesmo, mas sempre diferente. Os cabelos, ainda ondulados, ora presos, ora armados, sempre enamorados. Peças de um grande jogo, um tabuleiro chamado corpo, no qual apostei uma única partida e ganhei. Ganhei de prêmio o seu amor.

Anúncios